When Will I Ever Learn to Live in God?/Van Morrison

Quase não percebi a caixinha de papelão quando caiu das minhas mãos e se esparramou no chão. Talvez só tenha dado conta por que minha sobrinha me alertou. Tava um caos o apartamento de minha irmã naquele final de semana, pois estávamos de mudança.

A caixinha media 10 cm de comprimento por 04 cm de largura e encontrava-se cheia de recordações em forma de anotações, fotográfias, cartas, cartões… até coisas menos parentes do celulóide como uma aliança de uma relação já quebrada, uma língua de sogra de uma festa de aniversário que não compareci, um cartão telefônico usado e etc.

Mas do conteúdo que agora jazia no piso, uma foto antiga em preto e branco foi a única coisa que me chamou a atenção.

Nessa foto eu era visto parcialmente – parcialmente por que metade de mim estava aparente e a outra metade se escondia por trás da perna direita de meu pai numa franca atitude de timidez. Estávamos no meio de um culto evangélico, eu tinha aproximadamente oito anos, cabelos bem mais claros e finos que os de hoje e os olhos castanhos claríssimos como as manhãs de domingo de verão da cidade serrana onde vivíamos.

Talvez tenha sido naquela mesma manhã que eu surpreendi meu pai.

Nos serviços dominicais os guris (juniores) deveriam se reunir na ala infantil, mas eu sempre dava um jeito de ficar com os adultos porque os temas das pregações eram sempre mais palpitantes.

O que aconteceu a seguir foi em pleno sermão principal no momento em que o orador narrava uma parábola que exemplificava “o incomensurável amor de um rei africano por seu filho (ele trocou a mais preciosa das pérolas negras de sua coleção pela vida do seu primogênito)”. O pregador se engasgou na hora de dizer o nome do molusco que originava em suas entranhas aquelas esferinhas preciosas e enquanto estalava suavemente os dedos e fazia uma cara de quem tentava vomitar da memória a palavra certa, eu ousei levantar o dedinho e responder. Com um volume de voz baixo mas suficiente para ser ouvido, em tom de propriedade e ao mesmo timidez, expeli a palavra mágica: “Ostra”.

O homem de terno azul e gravata mal engomada em frente da congregação prontamente estendeu seu braço direito todo em minha direção e em seguida o levantou bruscamente na vertical num sinal claro de que queria dizer: “Isso, isso mesmo”.

Ao meu lado, meu pai satisfeito dava duas tapinhas de leve em meu ombro, enquanto por cima dos fios de cabelos rebeldes que se projetavam em direção a minha testa de infância, meus olhinhos viam o rosto de papai mais iluminado de orgulho do que refletor de estádio de futebol em dia de clássico. Na saída do culto, eu vi toda aquela luz se transformar em um facho de lanterninha de bolso quando respondi para ele a onde tinha aprendido aquilo: “Nas revistinha de faroeste de Tex”.

Para um evangélico no começo da carreira e com todo gás como ele, isso estava mais para um ultraje do que para um motivo de orgulho.

Uma cena da minha vida eu jamais esqueço. Principalmente por que anos depois – numa “pregação” para um (in)fiel só – papai acabaria projetando todo seu “fervor” (literalmente) em uma caixinha de madeira (mais uma vez uma caixinha!) transformando-a em cinzas num ritual improvisado de sacrifício com o “cordeiro” alheio. Não precisa dizer que a tal caixinha estava cheia de revistinha do meu herói favorito.

Esse e outros eventos me afastaram da igreja e da fé. O mesmo não ocorreu com meu pai (que amo de coração) que chegou ao equilíbrio e hoje é possuidor de uma fé admirável.

Nos últimos anos, às vezes aos domingos pela manhã, não sei se por um sentimento de expiação, se por uma sensação de fé mal resolvida; ou se por uma atitude de nostalgia pentecostal, não sei… só sei que me pego ouvindo Van Morrison e o CD Avalon Sunset. E desse CD a faixa “When Will I Ever Learn to Live in God?”. Por um instante imagino que tenho fé e isso me deixa feliz e leve, leve…


 

And up on the hillside its quiet
Where the shepherd is tending his sheep
And over the mountains and the valleys
The countryside is so green
Standing on the highest hill with a sense of wonder
You can see everything is made in god
Head back down the roadside and give thanks for it all

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Um comentário sobre “When Will I Ever Learn to Live in God?/Van Morrison

  1. Que texto lindo! Conseguiu me emocionar. Eu ouvi ou li, em algum lugar, que se um texto ou uma música consegue tocar no coração de, pelo menos, uma pessoa, terá valido a pena. Quanto à fé, cada um sente e expressa à sua maneira. É uma questão de descobrir o que te deixa leve, leve…

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